E quando não é apenas birra?

11/09/2018

Mas e quando as birras já não são apenas fases do desenvolvimento? Quando por trás delas está mais do que uma insatisfação momentânea, cansaço ou frustração? Quando realmente a criança esta sofrendo, mas não sabe como comunicá-lo?


Por Livia Rocha - Psicóloga Clínica - CRP06/83293


As birras fazem parte do processo de desenvolvimento infantil. Elas são expressões primitivas da insatisfação, frustração, cansaço. Como a criança ainda não sabe identificar o que esta sentindo e, dependendo da idade ainda nem se sequer sabe falar, uma das formas que ela consegue se expressar é através das birras. Por isso é tão importante os pais saberem identificar o que esta acontecendo e aprender como ajudar os filhos nesses momentos

Mas e quando as birras já não são apenas fases do desenvolvimento? Quando por trás delas está mais do que uma insatisfação momentânea, cansaço ou frustração? Quando realmente a criança está sofrendo, mas não sabe como comunicá-lo?

As crianças em vez de verbalizarem os seus sentimentos, pois muitas das vezes ainda não têm maturidade suficiente para se expressarem através de palavras, fazem-no através de birras ou outros comportamentos externalizantes.

A depressão infantil é frequentemente negligenciada pelo fato de se manifestar através de comportamentos pouco ajustados, e aos quais lhes são muitas vezes atribuídos outros significados. Frequentemente essas crianças são até rotuladas como "birrentas" ou "mal educadas", que exigem muita atenção e os sintomas são comumente confundidos com crises transitórias decorrentes da faixa etária.

A criança não consegue verbalizar que esta deprimida, e como toda criança, precisa de um adulto para ajudá-la a nomear seus sentimentos e emoções. Precisa de ajuda para dar significado ao que se chama, angústia, tristeza, ansiedade, medo, e por essa dificuldade tende a somatizar o sofrimento e começa a se queixar de dores físicas. Por exemplo, a criança esta com uma grande angústia de separação pode reclamar com frequência que esta com dor de barriga. Ou seja, ela mostra de outra forma que algo não esta bem com ela. Mas é importante ressaltar que a criança não inventa a dor de barriga, ela sente no corpo o sofrimento que ela não consegue expressar em palavras.

A depressão na infância tende a se manifestar de formas atípicas, justamente por essa imaturidade das crianças em conseguir se comunicar. E muito dos sintomas se manifestam notadamente com hiperatividade e alterações de humor. Lembrando que, como dito anteriormente, as crianças manifestam as suas dificuldades emocionais através da irritabilidade e frustração.

O Transtorno Depressivo Infantil é um quadro sério e capaz de comprometer o desempenho, o desenvolvimento e a maturidade psicossocial da criança. A maior dificuldade no diagnóstico e tratamento da depressão infantil é a descrença popular em sua existência ou a tentativa de minimizar ou negar o problema por parte de familiares.

Segundo a OMS, o índice de crianças entre 6 e 12 anos diagnosticadas com o distúrbio saltou de 4,5% para 8% na última década.

Quais as causas?

As causas são variadas e as principais são as relações familiares conturbadas, vivências de violência, problemas durante a gestação, luto, perdas, separação dos pais, dificuldade de adaptação a situações novas, mudança de escola, além de componente genético e hereditário.

Alguns sintomas que podem ser indícios do inicio da doença são:

  • Irritabilidade
  • Alterações na alimentação
  • Baixa autoestima
  • Crises de choro
  • Oscilações de humor
  • Medo
  • Agressividade
  • Ansiedade
  • Dificuldades na escola
  • Muitas queixas de dores físicas
  • Perda de interesse em atividades antes consideradas prazerosas
  • Alterações no sono, pesadelos frequentes.

Qual a importância de se diagnosticar e iniciar o tratamento com rapidez?

Primeiro, a doença traz enorme sofrimento e prejuízos à criança, tanto no desenvolvimento emocional como no desempenho escolar e social.

A criança com depressão cresce com a ideia que a felicidade que ela vê em outras pessoas não existe nela e acostuma-se com esse referencial. Isso faz com que ela acabe, muitas vezes cristalizando comportamentos ligados a doença como sendo de sua personalidade.

Os rótulos que carregam, pela falta de informação e diagnósticos corretos, pioram o quadro, pois em geral vem com conotações pejorativas. Como os comportamentos muitas vezes são explosivos, irritados, hiperativos, ou de muitas reclamações e choros, essas crianças também podem ser ridicularizadas, inferiorizadas, excluídas tanto no ambiente familiar quanto escolar. Agravando a angústia, tristeza, ansiedade e a baixa auto-estima.

A depressão vai acompanhá-la durante a vida, ora mais aparente ora camuflada, e na adolescência ela tende a voltar com mais força e muitas vezes com comportamentos de risco, uso de drogas, dificuldade escolares e relacionais entre outros.

Como é o tratamento?

O tratamento se dá através de psicoterapia e dependendo da gravidade do caso é necessária a medicalização.

O envolvimento familiar é fundamental no tratamento e muitas vezes a terapia familiar é indicada.

Se você identificar alguns desses sintomas e características em seu filho, busque um profissional qualificado para fazer um diagnóstico. Esse profissional pode ser um psicólogo(a) infantil ou um psiquiatra infantil.

Depressão é uma doença séria em qualquer idade e deve ser tratada.


 Fora a Depressão Infantil, esses comportamentos podem ter outas questões de fundo emocional ou transtornos. No SEMINÁRIO DE MÃES DO VALE, haverá uma palestra sobre Comportamentos Hiperativos, e como saber se os nossos filhos estão desenvolvendo algum problema.

Entender se o comportamento da criança é um sintoma de alguma coisa mais séria é fundamental para ajuda-los.

Não fique de fora!!  Venha participar com a gente desse dia especial!